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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

COISINHAS INTERESSANTES
Contos das Mil e Uma Noites

Sherazade

Chariar tendo sido traído por sua esposa mandou cortar o pescoço dela, das escravas e dos escravos. Depois, ordenou a seu vizir que trouxesse uma jovem virgem. Como vingança por ter sido traído, Chariar cada noite casava-se com uma moça diferente e, passada aquela noite, matava-a. Não cessou de agir assim por três anos. Os seus súditos viviam entre gritos de dor e, aterrorizados, fugiam com as filhas que lhes restavam. Não ficou na cidade jovem alguma em estado de servir aos ímpetos do rei. Nesse ínterim, o rei ordenou ao vizir que lhe trouxesse outra jovem, como de costume.
O vizir saiu e procurou, mas não encontrou jovem alguma. Todo triste, aflito, voltou para casa, com a alma cheia de terror, por causa do rei. Ora, esse vizir tinha também duas filhas, cheias de beleza. O nome da mais velha era Sherazade e o da mais nova, Doniazade.
Sherazade, tinha lido os livros, os anais, as lendas dos reis antigos e as histórias dos povos passados. Possuía milhares de livros de histórias referentes aos povos e aos tempos passados, e sobre os reis da antigüidade, e os poetas. Ela era muito eloquente e agradável de ouvir. À vista de seu pai, ela falou:
- Por que vos vejo assim, meu pai, tão mudado, carregando o fardo de desgostos e aflições? Nada pode durar; toda alegria se evapora e todo o desgosto se esquece!
Quando o vizir ouviu aquelas palavras contou à filha tudo quanto havia acontecido desde o começo até o fim, no que se referia ao rei. Então Sherazade lhe disse:
- Por Alá, ó pai, casa-me com esse rei, porque ou viverei, ou serei um resgate para as filhas dos muçulmanos e a causa da libertação delas das mãos do rei!
Ele lhe respondeu:
- Por Alá, conjuro-te. Não te exponhas assim jamais ao perigo!
Sherazade retrucou:
- É necessário fazer isso.
O vizir, sem insistir, mandou preparar o enxoval da filha, depois subiu para prevenir o rei Chariar.
Durante este tempo, Sherazade fez recomendações à sua jovem irmã:
- Quando eu estiver junto do rei, mandarei chamar-te, e quando chegares e vires que o rei terminou seu assunto comigo, tu me dirás: “Ó minha irmã, conta-me contos maravilhosos que nos façam passar a noitada!” Então eu te contarei contos que, se Alá quiser, serão a causa da libertação das filhas dos muçulmanos!
Seu pai, o vizir, veio buscá-la e subiu com ela aos aposentos do rei. Quando o rei quis tomar a jovem, ela se pôs a chorar e o rei lhe perguntou:
- Que tens?
Ela respondeu:
- Rei! Tenho uma irmãzinha a qual desejo dizer adeus.
Então Chariar mandou buscar a irmã, que veio e se atirou ao pescoço de Sherazade, e acabou por se acomodar ao pé do leito. Depois de o rei ter tomado Sherazade como esposa, os três começaram a conversar. Então, Doniazade disse à Sherazade:
- Conjuro-te, por Alá! Ó minha irmã, conta-nos um conto que nos faça passar a noite!
Sherazade lhe respondeu:
- De todo o coração e como tributo de homenagem devida! Se, contudo, assim permitir este rei bem educado e dotado de boas maneiras!
Quando o rei ouviu aquelas palavras, e como, tinha insônia, não se aborreceu por ouvir o conto de Sherazade. Ao amanhecer, Sherazade estava começando uma nova história. O rei, muito curioso para saber do desfecho, decidiu não matar a moça, para que ela concluísse seu conto na noite seguinte. Assim foi acontecendo todas as noites. O rei Chariar foi ficando apaixonado por Sherazade e após mil e uma noites, resolveu ficar com ela para sempre...
A ROUPA DO REI

Era uma vez um tão vaidoso de sua pessoa que só faltava pisar por cima do povo. Certa vez procuram-no uns homens que eram tecelões maravilhosos e que fariam uma roupa encantada, a mais bonita e rara do mundo, mas que só podia ser enxergada por quem fosse filho legítimo.
O rei achou muita graça na proposta e encomendou o traje, dando muito dinheiro para sua feitura. Os homens trabalharam dia e noite num tear mágico, cozendo com linha invisível, um pano que ninguém via. O rei mandava sempre ministros visitarem a oficina e eles voltavam deslumbrados, elogiando a roupa e a perícia dos alfaiates. Finalmente, depois de muito dinheiro gasto, o rei recebeu a tal roupa e marcou uma festa pública para ter o gosto de mostrá-la ao povo.
Os alfaiates compareceram ao palácio, vestindo o rei de ceroulas, e cobriram-no com as peças do tal traje encantado, ricamente bordado mas invisível aos filhos bastardos. O povo esperou lá fora pela presença do rei e quando este apareceu todos aplaudiram com muito entusiasmo. Os alfaiates, aproveitando a festa, desapareceram no meio do mundo.
O rei seguiu com o cortejo, mas, atravessando uma das ruas pobres da cidade, um menino gritou:
- O Rei está de ceroulas!
Todo mundo ali presente reparou e viu que realmente o rei estava apenas de ceroulas. Uma grande e estrondosa vaia foi o que se ouviu. O rei correu para o palácio morto de vergonha. Desse dia em diante corrigiu-se seu orgulho. E enquanto durou seu reino foi um rei justo e simples para o seu povo.

Nota:
Conto da idade média compilado pela primeira vez na Espanha por Dom Juan Manuel, século XV, em um livro intitulado "Libro de Patronio ou do Conde Lucanor". Anderson o contista, mais tarde o modificou e criou sua própria versão da história.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Flor de Laranjeira - Nelson Rodrigues - 14 anos


Baixou a voz:
— Sabe qual é o golpe?
— Qual?
E ele, com a boca encostada no seu ouvido:
— Você mata o serviço hoje e vamos ao cinema. Topas?
Hesitou, numa tentação deliciosa. Antes de capitular, po­rém, bateu na mesma tecla:
— Então jura que não és casado, jura.
Recuou, quase ofendido: “Mas você duvida? Não te jurei umas quinhentas vezes? Não te dei minha palavra? Parece até que você não tem confiança em mim!”. Era um namoro recentíssimo, de três ou quatro dias. Educada no santo e neces­sário horror ao homem casado, Carmelita duvidava ainda, du­vidava sempre. Acabou admitindo o cinema, com uma última condição:
— E você promete que, lá, fica quietinho, promete?
Enfiou as duas mãos nos bolsos:
— Prometo, prometo. E vamos chispar que está em cima da hora!
Mas quando chegaram no Metro a Carmelita viu que era fil­me nacional; refugou: “Não gosto de cinema brasileiro. Não to­lero!”. Cabeleira perdeu a paciência. Na porta do Metro, foi cí­nico, foi brutal:
— Tu pensas que eu vim ao cinema contigo para ver fitas? Tem dó. Vamos entrar, anda. Olha que eu me zango contigo!


O BEIJO
Lá dentro, ele atrás da pequena, soprou: “Vamos para ci­ma”. Argumentou: “É mais discreto”. Nova resistência: “Não vou. Pra cima, não vou”. Então, Cabeleira resolveu ser enérgi­co. Segurou a pequena pelo braço, arrastou-a: “Que bobagem! Vamos!”. Sentaram-se no canto mais discreto e vasto do cine­ma. Uns cem segundos depois, no apogeu do suplemento na­cional, resolve desfechar seu primeiro beijo. Agiu de maneira decisiva e fulminante, esmagando qualquer resistência. Teve, então, a surpresa. Beijada, Carmelita punha-se a respirar alto, forte, como se faltasse ar, numa dispnéia tremenda. Ao mesmo tempo, ele sentia que as mãos da pequena gelavam. Olhou para os lados, assustadíssimo, já prevendo que o vaga-lume apare­cesse ali e fizesse incidir sobre eles a lanterninha acusadora. Cha­mava, em voz baixa: “Fulana! Fulana!”. E pedia:
— Não faz escândalo! Não faz escândalo!
Cinco minutos depois, percebendo que Carmelita estava mais ou menos recuperada, teve a iniciativa de propor: “Vamos embora, vamos?”. Saíram. E, na rua, impressionado, perguntou:
— Mas que foi que houve contigo?
Ainda arrepiada, admitiu, doce e triste:
— Gostei demais!




DRAMA
Procurou disfarçar o mais possível. Mas já era outro homem e seu interesse sofrera uma queda vertical. Quando se despedi­ram, ela apertou na sua a mão do rapaz:
— Vou te dizer uma coisa.
— Diz.
Baixou os olhos:
— Eu nunca tinha sido beijada. Quero ver minha mãe mor­ta se estou mentindo. Você foi o primeiro homem a me beijar. — Pausa e completou: — E eu espero que seja o último.
Deu a face para que ele a beijasse e balbuciou o pedido: “Telefone, sim?”. Saiu dali desesperado. E, mais tarde, com um amigo, contou o episódio: “Beijei uma pequena, um beijo sem maiores pretensões, e ela só faltou subir pelas paredes”. O outro, de lábio trêmulo, confessou:
— Essa é das minhas. Gosto de mulher assim.
Cabeleira suspirou:
— Nem oito, nem oitenta. Tomei um tal enjôo, que já não acho mais a mínima graça na fulana. Vou chutá-la.




O CHUTE
No dia seguinte, ela o esperava no seu melhor vestidinho, gordinha e linda. Recebeu-o com um ar de humildade, de ado­ração e anunciou: “Sabe que eu tive um sonho contigo? Mas não posso contar, porque…”.
— Porque o quê?
Desviou a vista:
— Porque é impróprio para menores.
Foi essa ternura que o decidiu. Pigarreou e disse:
— Preciso te contar um negócio muito sério.
E ela:
— Fala.
Sem uma palavra, ele enfiou a mão no bolso, apanhou uma aliança, que colocou no dedo adequado. Atônita, Carmelita pa­recia não entender. Mas era óbvio: Cabeleira pousava agora a mão esquerda em cima da mesa, com a aliança evidente, ine­quívoca, insofismável. Durante alguns momentos, olharam-se em silêncio. Com uma doçura inimaginável, ela perguntou:
— Casado? Você é casado?
— Sou. Casado no civil e no religioso. Pai de filhos e ou­tros bichos. Moro com minha mulher, gosto dela, não me sepa­ro nem a bacamarte.
Quando Carmelita começou a chorar, ele, tomado de uma pena súbita, apanhou-lhe a mão: “Mas que é isso? Ora essa!”. De repente, começou a falar de si mesmo: “Fiz um papel conti­go indecentérrimo. Sabes que a teu lado eu me sinto um cana­lha?”. A pequena assoou-se no lencinho. Apanhou a bolsa, ergueu-se:
— De hoje em diante, nunca mais fala comigo.




PERSEGUIÇÃO
Em casa, Cabeleira custou a dormir: “Que sujeira abomi­nável!”. Só conseguiu anestesiar a consciência quando chegou, de boa-fé, à seguinte conclusão: “Foi melhor assim. Foi mais negócio, inclusive pra pequena”. Mas, no dia seguinte, a própria Carmelita, em carne e osso, comparecia ao seu escritório. Conversaram no corredor. E a menina, com uma dignidade mui­to doce, deu o dito por não dito. Esteve realmente lancinante ao concluir: “Gosto de ti assim mesmo, de qualquer maneira, casado ou solteiro, com filhos ou sem filhos”. Durante umas quarenta e oito horas, Cabeleira viveu dominado pela maior e mais dolorosa perplexidade. Não sabia o que pensar, o que fa­zer. Andou saindo com a menina e insistia: “Pensaste bem?”. Respondia, com uma coragem alarmante: “Contigo vou ao fim do mundo!”. Foram ao cinema e, na saída, Carmelita tem um lamento:
— Você não me beijou. Você não me deu nem um beijinho.


O AMIGO
Coincidiu que, por essa época, Cabeleira encontrou-se na rua com o Carvalhinho. Este se arremessou de braços abertos, numa efusão de arrepiar. Dois anos atrás, ele arranjara um con­vite do High-Life para o Carvalhinho. Este se tomara de uma gratidão agressiva e selvagem. Desde então, queria, a todo o tran­se, manifestar o seu reconhecimento. E não lhe ocorrera uma fórmula mais eficaz do que oferecer o seu apartamento. Sem­pre que encontrava o Cabeleira, oferecia, lembrava: “Quando tiveres uma pequena, já sabes: o apartamento está às ordens”. Celebrava as vantagens do local: “Discretíssimo. Água fria e quente, vista para o mar”. Até aquela data, o Cabeleira não ti­vera oportunidade de recorrer à gentileza do Carvalhinho. Ao vê-lo agora, porém, bateu na testa: “Tenho uma pequena, as­sim assim…”. O outro o interrompeu, aos berros:
— Pois então? Leva pro apartamento. Não dorme no pon­to. Mulher não se enjeita.




A CHAVE
Era óbvio que a gratidão do Carvalhinho estava mais ace­sa do que nunca. Não havia hipótese de esquecer o convite. Quando o amigo se despediu, deixou a chave do fabuloso apar­tamento. Criou-se, para Cabeleira, o dilema. Quando viu a pe­quena fez o convite; mas insistiu: “Olha que eu sou casado e não posso me casar”. E ela:
— Não faz mal. Vou assim mesmo.


O PECADO
Segundo a combinação feita, ela devia estar lá às quatro ho­ras da tarde. Muito antes, já o Cabeleira entrava no tão falado apartamento do Carvalhinho. E justiça se lhe faça: esse aparta­mento, decorado não sei por quem à maneira árabe, abismou o Cabeleira. Esteve no banheiro, experimentando a água fria e quente; afundou nas poltronas, que eram realmente espetacu­lares. Torturado de escrúpulos pensava: “Não tenho direito de fazer isso. Vou desgraçar essa pequena”. Na hora certa, com uma pontualidade patética, chegava Carmelita. Vinha tão segura de si, com tão firme e desesperada determinação de pecar, que o rapaz se crispou: “E não tens medo?”. Encarou-o, serena:
— Por que e de quê? Não há mulher mais feliz do que eu.
Então, Cabeleira, que era sentimental como o diabo, segu­rou a pequena pelos dois braços: “Sua boba, eu não sou casa­do, nunca fui casado. Essa aliança é de araque!”. Pausa e, já com vontade de chorar, disse o resto:
— Tu vais sair daqui agorinha mesmo, já. Nem te beijo. Faço questão de me casar contigo, de véu, grinalda e outros bichos!